A reportagem do TeDisse.com perguntou em um grupo do Whatsapp, formado por oito mulheres, qual a principal diferença entre Travesti e Transexual. “Travesti é o homem que se veste de mulher, mas não fez a cirurgia de redeaquação sexual. A transexual coloca peito, bunda, passa por cirurgia de mudança do sexo e se veste como mulher”, respondeu Vanessa, em coro com as colegas da mesma opinião.
Apesar da geração ser marcada por maior liberdade sexual, ainda existe a dificuldade para definir transexual, travesti e identidade de gênero.  Conversamos com o Prof. Paulo Tessarioli, 45 anos, especialista em Terapia Sexual há 19 anos, Fundador e Presidente da Associação Brasileira dos Profissionais de Saúde, Educação e Terapia Sexual – ABRASEX, que irá esclarecer as principais dúvidas relacionadas ao assunto.


1) Doutor, de um modo geral, há muita confusão quando falamos de identidade de gênero e orientação sexual?

*Sim, muita confusão. São conceitos bem diferentes. Identidade de gênero é a sensação que tenho de ser mulher ou de ser homem, ou mulher e homem ao mesmo tempo. A orientação afetivo-sexual me posiciona para quem o meu sentimento e o meu desejo sexual se direcionam. Se sentimento e desejo não estiverem juntos estamos falando de comportamento afetivo ou comportamento sexual, por exemplo, _fulana só tem amigas mulheres, não vejo ela com nenhum homem (comportamento afetivo)_ ou _meu marido gosta de receber carícias anais (comportamento sexual) e me diz que não é gay_*.

2) Como podemos definir o indivíduo Travesti e o Transexual?

Travesti tem identidade de gênero “bi-genérica” porque sente-se como mulher e homem ao mesmo tempo. O mais comum é encontramos os travestis que, biologicamente, nasceram como “machos” (assim que somos classificados no reino animal, machos ou fêmeas) mas que também se sentem, do ponto de vista da identidade de gênero como mulheres e por isso, não possuem conflitos com o pênis (porque se identificam também como homens), mas querem ter uma aparência feminina. Transexuais possuem conflitos entre a identidade de gênero e o corpo físico com o qual nasceram. Por exemplo, um bebê biologicamente macho, que por volta dos 3 anos de idade passa a se identificar com o universo feminino e se sente como menina e que, durante toda sua infância teve conflitos porque não se via e nem se sentia como menino. Na adolescência, surgem as características masculinas do seu sexo biológico, o transformando em um garoto e aí o conflito aumenta. Alguns chegam até a cometer atos de automutilação.*

3)  A identidade de gênero, no inconsciente coletivo, está associada à escolha, falta de vergonha ou ausência do pai. Qual a explicação da Psicanálise para tal associação?

Identidade de gênero, por se tratar de um conceito que é construído de dentro para fora, caso contrário não poderia ser compreendido por meio do termo _identidade_ (“id” é a parte mais primitiva do inconsciente), não pode estar associado ao que acontece na vida do indivíduo, porque se isso fosse possível a identidade de gênero seria muito instável e dependeria da convivência com as pessoas, de modo que encontramos vários exemplos de filhos _cisgêneros_ (conformidade entre o sexo atribuído no momento do nascimento e o gênero ao qual se identifica) que convivem com a ausência paterna sem ter conflitos com a identidade de gênero.*

4)  Segundo pesquisa da ONG TRANSGENDER, feita em 72 Países, o Brasil é o país que mais mata Trans no mundo. Qual seria o motivo para tanto ódio? Seria a crença na autoafirmação do macho pocriador e na religião?

Vivemos em uma sociedade muita rígida em termos de aceitação, em todos os sentidos. No que se refere à identidade de gênero, pessoas trans (que não se conformam com o sexo atribuído no momento do nascimento) são tidas como “aberrações” da natureza e por conta disso perseguidas, rotuladas e geralmente eliminadas do convívio social.*

5)   Qual o papel da família na estrutura emocional desses indivíduos?

A aceitação da família, em todos os aspectos da vida de um indivíduo, é fundamental e em relação aos aspectos da sexualidade não seria diferente.*

6) Qual o principal questionamento que chega até o Doutor no seu consultório?

Pessoas trans, geralmente, procuram ajuda profissional quando encontram apoio de pessoas nas quais confiam. As pessoas com conflitos de autoaceitação da orientação afetivo-sexual procuram ajuda profissional para compreender o que acontece com elas e, em alguns casos, imploram para tirar isso (o conflito da autoaceitação) de dentro delas.*

7) Históricamente, quem passa por maior preconceito: o Trans ou o Travesti?

Na nossa sociedade, travestis não encontram espaço e nem acolhimento.*

8) De que maneira podemos conscientizar sobre tolerância, respeito e esclarecimento sobre sexualidade e seus conceitos?

Precisamos de ações contínuas de capacitação profissional e de educação em sexualidade.*

Por Savana Figueredo

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